Cuidados paliativos e finitude

Álvaro Antônio Nicolau – Neuropsicólogo

 

Um dia, exatamente em 01 novembro de 2018, dia dos mortos, estive no cemitério em Bom Despacho, onde meu pai foi enterrado.  Olhando para as pessoas ali presentes após eventos religiosos, senti esvaziado de mim mesmo. Perdido em meus próprios pensamentos tive um susto ao ler a placa de seu túmulo onde constava 1983. Tanto tempo!

Passei a refletir quanto à temporalidade em relação aos nossos atos, muitas vezes atos falhos. Viver, existir, agir, pensar, o tempo compõe certamente cada fase, ou pedaço de cada um de nós, em nossa própria insignificância. Insignificância ante à grandeza de Deus. Do meu Deus, do seu Deus, do nosso Deus. Do Deus de cada um.

Insignificância frente aos nossos próprios arroubos que, diante do inusitado da morte, de sua incompreensibilidade terrena, assegura um nada.

A temporalidade realmente é algo em que precisamos pensar nela com nossos atos mais proativos. Parece-me que passado, presente e futuro se agrupam para fazer sentido. Penso que, nesse sentido, futuro não existe porque se torna presente. Se eu disser no futuro faço isso ou aquilo, posso me surpreender, pois não dará tempo, ou, o futuro, pode não estar lá, mas no aqui, e no agora.

Mas o motivo de escrever sobre esse tema, me trás um sentido mais amplo porque os cuidados paliativos tem um significado proeminente, especialmente nos dias  de hoje, nos quais , muitos dizem, ou dizemos, não temos tempo para nada. Todavia, quando questiono a mim mesmo, me vejo num processo de que não consigo ser senhor de mim mesmo ao lidar com a temporalidade minha e muito menos com a temporalidade dos outros. Mas todos nós , de uma forma ou de outra, nos atracamos, muitas vezes, com nossos estigmas e, muito, com nossas imperfeições. Mas, e a morte? E o morrer? E o deslocamento da vida pela, ou para, a morte?

A  morte e o morrer. O morrer com qualidade. Qual nosso papel?

Aí entram os cuidados paliativos na preparação de nós mesmos para servirmos aos outros. O sentido é o viver a vida na morte de um ente querido.

Portanto, a morte é a realidade. É a pura verdade de um ciclo.O morrer faz parte de nosso caminho. Todavia a forma de lidarmos com esse mistério ainda é da “impossibilidade”.  Ou da possibilidade?

Quanto mais a morte está presente no nosso meio, maior a necessidade de entrarmos, de alguma forma, em seus misteres. A buscar uma síntese da vida pela morte.

Finitude

 A finitude embora sendo inquestionável, e algum dia chegará, ainda pode nos oferece dissensões de entendimento, e ainda nos colocar, ou colocará, vivendo tabus de “ser”, distintos, mas amplo e encorajado  pelo aprofundamento da discussão  de seu enfrentamento.

Menciono a questão da finitude como parte de meu ser, e de cada um. Dos enfrentamentos  de cada um.

Ver, sentir, e agir, passa a compor um conjunto  com falta de sentido, passando a um processo ameaçador de nosso cotidiano, a partir de nossas concepções e forma de fazer o acolhimento, mesmo ao sentir outras necessidades por conta da natureza humana. Isso nos leva a uma negação. Negação da morte. Ou da vida. Ou ao sentido de ser-no-mundo.

Embora ainda haja interrogações quanto ao sentido da vida, quanto ao viver e o morrer,  nos parece que faz sentido dar seguimento ao ser-no-mundo com seu modo-de-ser, com o nosso, o meu, e o seu, modo-de-ser.

Não nos parece adequado deixar de acolher, e de cuidar das pessoas na finitude dando a ela qualidade de vida na morte, ou melhor, para a morte, para a morte da pessoa que amo, e amo muito.

Não quer dizer que nas doenças avançadas,o doente, não careça de acolhimento para uma finitude com amor, doação dos outros, compreensão, pacificação dos atos e fatos que matam pela inação.

Não se pode morrer em vida. Essa talvez seja a pior morte “morrida”.

Precisamos, dessa forma, fazer perguntas, muitas perguntas. Talvez não tenhamos respostas para todas. Mas que importa isso!

Precisamos estar estagnados por um “morrer, morrendo?” O acarinhar para não termos uma “vida burra” no morrer das pessoas. Dar carinho, colocar no colo, servir para a vida mesmo na finitude da própria vida.

Dar e receber o carinho humano fortalece um ser do-ente.

Cuidados paliativos, são verdades, do verdadeiro dom de ofertar ao outro a pré-sença com qualidade. Daí a importância da assistência a doentes terminais. Dignidade na finitude.

Doar tempo

Conflitos parecem inevitáveis e são percebidos na angustia do não-poder ser a solução, o sentido da salvação humana, pelo humano.

Mas as ações decorrentes de um planejamento controla o sentido de ser das pessoas que doam, aquilo que muitas vezes não sabem que podem doar num adoecer.

Menciono a questão bioética indicativa de aspectos morais relevantes e com tendência conflituosa. Há dificuldades? Sim, há. Há desafios? Sim há.

Muito se fala quanto a uma autonomia que pode ser deixada de lado, além de uma centralidade fora do centro.Ou de uma verdade indiscutivelmente inexistente fora do ser, mas inevitável em sua evidencia de vida. A verdade da morte, e do morrer, em que se desenvolvem as questões pertinentes ao fim da vida.

Assim o “cuidar de si” para cuidar do outro, na estruturação de um fim que seja planejado  fora dos contextos profissionais do acolher e das emoções pode ser uma futilidade. Talvez por estar vinculado a uma verdade médica e não fluida da paz encontrada no acolhimento que dá vida à morte, na finitude do ser.