Sobrevivendo, um dia viverei…ou sobreviverei ao meu próprio sentido de ser-no-mundo

setembro-amarelo

Álvaro Nicolau – Neuropsicólogo/ Psicólogo

O que significa isso? Nada!?? Mas o que é o nada frente ao tudo da vida, e do viver? Nada e tudo podem ser a mesma coisa? Sei lá, uns dizem. Que bobagem, outros falam. Mas…

Pois bem procuramos chamar a atenção. Chamar a sua atenção! Só isso? Claro que não! Há muito mais que isso, um tudo, ou um nada, por detrás de cada pessoa, em sua natureza humana. Uma incógnita! Um ser-nascente em um ser de morte querendo ser da vida.

Ocorre que estamos vivendo neste mês de setembro, ao que em 2015 foi denominado de “Setembro Amarelo”, dedicado pelo Ministério da Saúde para fomentar o diálogo sobre o suicídio. Mas o que tem isso a ver?

Logo na primeira dezena deste mês, Camila, Neuropsicopedagoga, linguista e psicopedagoga da Arcadium me “cobrou” uma manifestação sobre o suicídio. Confesso que não me entusiasmei. Não queria mesmo escrever sobre isso. Não estava com foco para isso; não havia vontade.  Até que nesta semana, atendendo uma criança de 08 anos a vi e ouvi ela falar sobre o suicídio. A falar sobre sua falta de desejo de viver esta vida que está vivendo; falta de vontade de estar ali, aqui ou acolá. Seu desânimo, ele diz, é alguma coisa que não consegue controlar, “estou com vontade de fazer nada…de morrer”. Prossegue, “não quero viver mais não”. Pais cientes e aplicados em ajudar o filho dando-lhe a oportunidade de encontros inquestionáveis com profissionais gabaritados para avançar com ele no “processo de reencontro com ele mesmo”, o percurso com a criança continua.

A partir daí perdi meu conforto.

Esse assunto traz sofrimento de culpa, que é comum entre os que vivem o luto, mas também dor, saudade, tristeza, muita perplexidade, além de impotência compondo o rol de sentimentos que permeiam o contexto familiar de quem perde uma pessoa pelo suicídio.

Rebuscando minhas anotações encontrei o registro de APS (iniciais fictícias para preservar a identidade da fonte), que em 2016 mencionava sua indignação se sentindo como “sobrevivente do suicídio” e não conseguia conviver com a ausência de quem se matou nos seus 73 anos. Seu pai morava com a esposa e, aparentemente, nada havia que indicava tal tendência. Primeira raiva, entendendo que ele não tinha o direito de fazer o que fez. Só deixou sofrimento, um grande vazio e os familiares tentando conviver com as sequelas do suicídio. Percebe-se que temos um lado que precisa ser olhado, acompanhado, acolhido, o de quem ficou. As pessoas, em sua maioria, especialmente a mãe(esposa)- ficou muito desestruturada- só falando no presente, mesmo considerando que o marido já não mais está aqui.  Ela está com distúrbio do sono, deprimida, e parece viver um pesadelo. Ele finaliza dizendo “eu não aceitei bem, mas agora procuro conviver com isso e procuro compreender o porquê aconteceu…mas não sei…não sei”.

Esses são dois casos isolados. Todavia a Organização Mundial de Saúde (OMS) (acesso em 23 de setembro de 2018) diz que quase 800 mil pessoas morrem por suicídio anualmente no mundo equivalendo a uma morte a cada 40 segundos.

A Associação Internacional de Prevenção ao Suicídio (acesso em 23 de setembro de 2018) vai mais além ao afirmar que cada suicídio afeta 135 pessoas trazendo a elas traumas e abalo psicológico.

O que se vê e percebe no ambiente da Clínica e no cotidiano também, é que o suicídio é um fenômeno, na verdade, um fenômeno muito complexo, que deixa para trás “sobrevivente” deixando principalmente no âmbito familiar muita revolta, dor, raiva, tristeza, culpa, mas, além disso, muitas perguntas sem respostas.

O anúncio do suicídio nos deixa primeiro estarrecido, perplexo, questionamentos intermináveis (faltei em algumas coisas? Ausentei dele? Porque? … Cria-se um grande vazio…vazio existencial. É tão drástico que, ou une a família ainda mais, ou acaba por uns culparem os outros. Há uma sensação de falta, de faltar alguma coisa diz APS mas completa dizendo que “eu me culpo por não tê-lo aproveitado quando pude”. Sua sensação é de falta…Aja força! ele fecha a conversa.

Esta é uma pequena menção sobre o tema. Mas é preciso que o apoio a todos que ficam seja evidente, e que esse aprisionamento seja pensado, discutido, tratado com carinho e responsabilidade. Isso leva tempo e o apoio psicológico aos familiares de alguém que cometeu suicídio e outros que estejam enlutados, é um dos fundamentos para o entendimento de tudo o que aconteceu.

Em relação à ideação suicida suscita em nós outros uma postura ética, moral, profissional de tamanha importância. Isso porque ao se manifestar quanto ao suicídio aquela máxima de que “quem avisa não faz” é algo impensável. Somente quem vive a dor sabe o tamanho dela e deve ser levado a sério.

Por isso, principalmente os pais, precisam estar atentos aos sintomas manifestados pelos filhos, pelos pares, pelos familiares, e outras pessoas que podem procurar ajuda e se mostrar por um ato, ou falta dele, por uma palavra, ou ausência dela. Dizer que a “depressão é frescura; isso é preguiça … ” por exemplo,  é um grande mal e um desserviço ao contexto do que estamos discutindo.

Como se vê esse assunto é sério, é traumático, mas precisamos falar sobre ele.

Precisamos ficar atentos a quaisquer sintomas apresentados pelas pessoas, e agir com oportunidade.

Alerta geral!

 

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