DISCUTINDO PROCESSOS COGNITIVOS

Álvaro Nicolau – Neuropsicólogo

A atenção como referência

A atenção é a função cognitiva que mais me chama à reflexão. Como processo cognitivo, a atenção nos permite concentrar em um estimulo qualquer, devidamente escolhido, ou atividade para processá-los com mais aprofundamento num tempo depois. É uma das funções mais fundamentais para o desenvolvimento das atuações cotidianas, utilizada na maioria das tarefas que realizamos no dia-a-dia. Em especial é considerada a habilidade que controla e regula os processos cognitivos da percepção (precisamos da atenção para focar em um estímulo que nossos sentidos não alcançam) à aprendizagem, assim como em processos raciocínio mais complexo. Ao lidar com projetos de estudos, ou mesmo ouvindo pais em anamnese, e até mesmo crianças e adolescentes, quando a manifestação passa para o sentido que eles dão ao processo atencional faz como que essa temática se torne ainda mais atrativa para estudo.

Gastei tempo para compreender também esse fenômeno de que o adolescente desatento, principalmente na fala dos pais, ganha notoriedade:  “meu filho é inteligente, mas não vai bem na escola. Ele fica voando em sala de aula. Ele não tem atenção, mas naquilo que ele quer ah! vai longe. Ele nem mexe quando está assistindo um vídeo, não vê nada ao seu lado”.

É recorrente a fala de que “quando meu filho está com celular ou jogando pode cair o céu que ele não está nem aí”.

Com o tempo, e os estudos, entendemos que, no mundo moderno de hoje há muita informação e estímulo, e os itens certamente não são, em sua maioria, interessantes para os sentidos. Dessa forma, o que não atrai os sentidos, amplia a dificuldade para fixar, ignorar os pensamentos e manter foco atencional.

Primariamente poderíamos pensar que uma pessoa nas especificidades da apresentação a nós enquanto desatenta, simplesmente não tinha, ou tem, interesse em lidar com aquela informação apresentada e, por isso, não fixava sua atenção, especialmente quanto aos estudos, que se tornava, e torna, para muitos, chato e repetitivo, sem atração. Vamos aprendendo com o tempo e, presentemente, esse curso me trouxe isso, a percepção de que o fluxo da atenção pode estar no sentido que dou às escolhas para ver, ou fazer, como escolha primaria ou primordial, em relação às outras questões a mim colocadas. Ou seja, tenho muita atenção, foco, desde que haja meu interesse na escolha. Assim fica evidente que, quando minha consciência não traz para mim o sentido para prestar atenção, minhas experiências não chegam a fixar, ou seja, as experiências são coerentes com aquilo que eu concordo em fixar, ou prestar atenção. Se eu não estiver com a intenção de prestar atenção, se não tiver concordado com isso, a atenção não fluirá.

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Contexto teórico

Ademais todos nós sabemos, mesmo empiricamente, o que é prestar atenção, e as prioridades precisam ser criadas, ou selecionadas, mas de forma organizada, planejada. Isso porque a mente precisa tomar posse, de forma clara, mas também vivida, daquilo que eu coloquei na linha do pensamento. Dessa forma está em seu contexto primordial, a focalização e a concentração da consciência como essências desse caminho da atenção. Aprendemos que implica a abstenção de algumas coisas para poder lidar eficazmente com outras (JAMES, WILIAM, 1952 apud LIMA, 2005, p.114).

Fica indicado, por esse caminho, que a atenção pode estar aberta para a entrada da informação, ou fechada para essa entrada. É a analogia da “porta aberta, ou fechada”, permitindo, ou não, a “entrada” do que me interessa, ou não me interessa, na consciência. Aqui pode-se entender que é a atenção a principal via de acesso às atividades, ou seja, é porta para iniciar as atividades dentro do cérebro. Aqui estão inseridas as aprendizagens para fazer associações, interpretar, filtrar as informações, tomar decisões, guiar o próprio comportamento… por isso, ela é tão importante do ponto de vista neuropsicológico, e é considerada a base dos nossos processos mentais.

Dessa forma, a atenção, em neurociências, indica um conjunto de processos que nos levam a estabelecer prioridades e a responder estímulos – os relevantes, conforme nos ensina Lima (2005). Estão envolvidos os estímulos externos e internos, pois o resgate de informações arquivadas na memória, pensamentos, dentre outros, também está neste contexto.

Assim, a atenção é um conjunto e processos e não se refere a um mecanismo único, fechado em si mesmo e se divide em tipos e subtipos, além de envolver modalidades sensoriais diferentes.

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Segundo Dalgalorrondo, (2000) pode ser voluntária, quando é intencional, pois acontece quando nós decidimos para onde queremos dirigir nosso foco: estamos no controle; e involuntária ou automática, quando nós somos impulsionados pelas características dos estímulos ao redor, que atraem um ou mais dos nossos sentidos, ela não depende do nosso controle consciente e ocorre, por exemplo, diante de estímulos inesperados no ambiente (barulhos, cores intensas, novidades, incongruências, dentre outros).

Temos quatro tipos básicos de atenção: a seletiva, que se relaciona diretamente à inibição de distrações. Representa a capacidade de focar em algum estímulo, ao mesmo tempo permanecendo insensível a outros. Ou seja, concentrando-se em algum aspecto e, ao mesmo tempo, distraindo-se de outros. Outra é a atenção sustentada, que se refere à capacidade de sustentar do esforço atencional, manter o foco numa atividade ou estímulo por um tempo mais longo. A concentração é também sinônimo de sustentação da atenção seletiva, com inibição de distratores. A seguir temos a atenção alternada, que corresponde à capacidade de alternar o foco da atenção, a depender das necessidades do contexto. Igualmente, de retomar o foco da atenção após alguma interferência. A outra a ser mencionada é a atenção dividida, que se relaciona à capacidade de focar simultaneamente dois ou mais contextos. A divisão da atenção torna possível a multitarefa. Contudo, deve-se ter sempre em mente que a verdadeira atenção dividida existe numa única condição. Quando pelo menos uma das tarefas é feita no piloto automático, sem demandar esforço de processamento.

Já mencionamos que os processos cognitivos podem ocorrer de forma natural ou artificial, surgindo de forma consciente ou inconsciente, acrescentamos que geralmente são rápidos e funcionam constantemente sem a gente perceber.

Um bom exemplo de processo atentivo no cotidiano podemos citar algo ocorrente na nossa vida diária como é o caso de deslocarmos para o trabalho de carro: quando estamos deslocando na rua e vemos um semáforo ficar vermelho, iniciamos o processo cognitivo que nos indica que temos que tomar uma decisão (atravessar ou não). A primeira coisa que devemos fazer, nesse caso, é prestar atenção ao semáforo. Através da vista percebemos que está vermelho. Em apenas alguns milissegundos, obtemos da memória que quando o semáforo está vermelho não devemos atravessar, mas também lembramos que, às vezes, se não há nenhum carro então podemos atravessar. Aqui é quando provavelmente tomarmos a primeira decisão: esperar até o semáforo ficar verde, ou ver para a direita e a esquerda (alterando novamente nossa atenção) para comprovar se há algum carro passando.

Noutro momento, especialmente quanto à atenção alternada, um bom exemplo, é quando estamos trabalhando e somos interrompidos por um telefonema. Atendemos, conversamos e, ao final, retomamos nossa atividade anterior, ou seja, retomamos o nosso trabalho. Acrescentamos que esse quadro é também conhecido como Flexibilidade Cognitiva e é prejudicada quando há tendência ao hiperfoco.

 

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