V Brain Connection



Nos dias 21, 22 e 23 de novembro de 2019 aconteceu em Belo Horizonte o V Brain Connection. Foram três dias de imersão em conhecimentos neurocientíficos. Nossa psicopedagoga participou com artigo de revisão bibliográfica de título: Central de comando: funções executivas e o processamento da leitura. Ficamos orgulhosos em saber que seu trabalho recebeu o prêmio Prof. Dr. Fernando Capovilla na categoria Literature Review. Parabéns Camila Cristina Franco Nicolau, sabemos de teu esforço e dedicação.

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Cuidados paliativos e finitude

Álvaro Antônio Nicolau – Neuropsicólogo

 

Um dia, exatamente em 01 novembro de 2018, dia dos mortos, estive no cemitério em Bom Despacho, onde meu pai foi enterrado.  Olhando para as pessoas ali presentes após eventos religiosos, senti esvaziado de mim mesmo. Perdido em meus próprios pensamentos tive um susto ao ler a placa de seu túmulo onde constava 1983. Tanto tempo!

Passei a refletir quanto à temporalidade em relação aos nossos atos, muitas vezes atos falhos. Viver, existir, agir, pensar, o tempo compõe certamente cada fase, ou pedaço de cada um de nós, em nossa própria insignificância. Insignificância ante à grandeza de Deus. Do meu Deus, do seu Deus, do nosso Deus. Do Deus de cada um.

Insignificância frente aos nossos próprios arroubos que, diante do inusitado da morte, de sua incompreensibilidade terrena, assegura um nada.

A temporalidade realmente é algo em que precisamos pensar nela com nossos atos mais proativos. Parece-me que passado, presente e futuro se agrupam para fazer sentido. Penso que, nesse sentido, futuro não existe porque se torna presente. Se eu disser no futuro faço isso ou aquilo, posso me surpreender, pois não dará tempo, ou, o futuro, pode não estar lá, mas no aqui, e no agora.

Mas o motivo de escrever sobre esse tema, me trás um sentido mais amplo porque os cuidados paliativos tem um significado proeminente, especialmente nos dias  de hoje, nos quais , muitos dizem, ou dizemos, não temos tempo para nada. Todavia, quando questiono a mim mesmo, me vejo num processo de que não consigo ser senhor de mim mesmo ao lidar com a temporalidade minha e muito menos com a temporalidade dos outros. Mas todos nós , de uma forma ou de outra, nos atracamos, muitas vezes, com nossos estigmas e, muito, com nossas imperfeições. Mas, e a morte? E o morrer? E o deslocamento da vida pela, ou para, a morte?

A  morte e o morrer. O morrer com qualidade. Qual nosso papel?

Aí entram os cuidados paliativos na preparação de nós mesmos para servirmos aos outros. O sentido é o viver a vida na morte de um ente querido.

Portanto, a morte é a realidade. É a pura verdade de um ciclo.O morrer faz parte de nosso caminho. Todavia a forma de lidarmos com esse mistério ainda é da “impossibilidade”.  Ou da possibilidade?

Quanto mais a morte está presente no nosso meio, maior a necessidade de entrarmos, de alguma forma, em seus misteres. A buscar uma síntese da vida pela morte.

Finitude

 A finitude embora sendo inquestionável, e algum dia chegará, ainda pode nos oferece dissensões de entendimento, e ainda nos colocar, ou colocará, vivendo tabus de “ser”, distintos, mas amplo e encorajado  pelo aprofundamento da discussão  de seu enfrentamento.

Menciono a questão da finitude como parte de meu ser, e de cada um. Dos enfrentamentos  de cada um.

Ver, sentir, e agir, passa a compor um conjunto  com falta de sentido, passando a um processo ameaçador de nosso cotidiano, a partir de nossas concepções e forma de fazer o acolhimento, mesmo ao sentir outras necessidades por conta da natureza humana. Isso nos leva a uma negação. Negação da morte. Ou da vida. Ou ao sentido de ser-no-mundo.

Embora ainda haja interrogações quanto ao sentido da vida, quanto ao viver e o morrer,  nos parece que faz sentido dar seguimento ao ser-no-mundo com seu modo-de-ser, com o nosso, o meu, e o seu, modo-de-ser.

Não nos parece adequado deixar de acolher, e de cuidar das pessoas na finitude dando a ela qualidade de vida na morte, ou melhor, para a morte, para a morte da pessoa que amo, e amo muito.

Não quer dizer que nas doenças avançadas,o doente, não careça de acolhimento para uma finitude com amor, doação dos outros, compreensão, pacificação dos atos e fatos que matam pela inação.

Não se pode morrer em vida. Essa talvez seja a pior morte “morrida”.

Precisamos, dessa forma, fazer perguntas, muitas perguntas. Talvez não tenhamos respostas para todas. Mas que importa isso!

Precisamos estar estagnados por um “morrer, morrendo?” O acarinhar para não termos uma “vida burra” no morrer das pessoas. Dar carinho, colocar no colo, servir para a vida mesmo na finitude da própria vida.

Dar e receber o carinho humano fortalece um ser do-ente.

Cuidados paliativos, são verdades, do verdadeiro dom de ofertar ao outro a pré-sença com qualidade. Daí a importância da assistência a doentes terminais. Dignidade na finitude.

Doar tempo

Conflitos parecem inevitáveis e são percebidos na angustia do não-poder ser a solução, o sentido da salvação humana, pelo humano.

Mas as ações decorrentes de um planejamento controla o sentido de ser das pessoas que doam, aquilo que muitas vezes não sabem que podem doar num adoecer.

Menciono a questão bioética indicativa de aspectos morais relevantes e com tendência conflituosa. Há dificuldades? Sim, há. Há desafios? Sim há.

Muito se fala quanto a uma autonomia que pode ser deixada de lado, além de uma centralidade fora do centro.Ou de uma verdade indiscutivelmente inexistente fora do ser, mas inevitável em sua evidencia de vida. A verdade da morte, e do morrer, em que se desenvolvem as questões pertinentes ao fim da vida.

Assim o “cuidar de si” para cuidar do outro, na estruturação de um fim que seja planejado  fora dos contextos profissionais do acolher e das emoções pode ser uma futilidade. Talvez por estar vinculado a uma verdade médica e não fluida da paz encontrada no acolhimento que dá vida à morte, na finitude do ser.

Palestra: Neurociências e educação

Ter conhecimento só faz sentido se for compartilhado. Nossa Psicopedagoga retornou à instituição em que graduou-se em Jornalismo e Letras, Uni-BH, para falar sobre neurociências relacionado à educação. A equipe Arcadium a parabeniza por essa conquista.

Foto Márcia Machado

Foto Márcia Machado

Foto Márcia Machado

Foto Márcia Machado

Foto Márcia Machado

Foto Márcia Machado

Neurociências e educação

Camila Cristina Franco Nicolau – Linguista/Psicopedagoga

Fonte: http://www.ipgex.com.br/curso/neurociencia-e-educacao/

Fonte: http://www.ipgex.com.br/curso/neurociencia-e-educacao/

Afinal o que é neurociências?

Neurociências é o estudo do Sistema Nervoso Central (SNC) associado a outras áreas do conhecimento (educação, comunicação, humanas, saúde, biologia, etc). Por isso, é chamada de área multidisciplinar.

Mas o que a tal de neurociências tem a ver com aprendizagem?

Tudo. Entender o SNC é compreender como a informação caminha pelo cérebro e, então, saber que funções estão sendo ativadas e quais ainda precisam ser melhoradas. O entendimento da neurociências facilita a compreensão do que desenvolver em cada época para facilitar a aquisição de conhecimentos mais complexos no futuro.

Por exemplo, sabe-se que o desenvolvimento sensório motor é primordial para todo o controle dos sentidos. Tendo domínio motor sobre braços, pernas, boca, olhos, entre outros, é possível permitir que outras habilidades se priorizem. Fica mais fácil entender quando se coloca na prática.

Quando na clínica nos deparamos com diversos casos de dificuldade de leitura, percebemos um padrão de dificuldade de controle inibitório no momento da atividade. Como essa dificuldade se manifesta? Mexe muito pernas e braços. Levanta constantemente e anda de um lado para o outro no momento da leitura. A pergunta que se faz é: como ocorreu essa estimulação sensorial na primeira infância? A criança foi ensinada a ter controle motor sobre o corpo? Entendeu que determinadas atividades exigem certo tipo de comportamento para as pernas e braços? E os olhos, foram treinados a se moverem?

Entendo que não pode-se generalizar, cada caso é um caso. No entanto, casos de disfuncionalidade executiva gerariam tal comportamento, por se tratar o controle inibitório uma função executiva. Cabe aqui uma reflexão sobre o que estamos ensinando a nossas crianças que vivem em um mundo com tanto estímulo eletrônico e tantas coisas prontas que desaprenderam a fazer e esperar pelo resultado.

Quanto tempo seu filho passa em frente ao celular? Videogame? Televisão? Ele foi ensinado a passar um tempo com livros? Jogos de tabuleiro? Sentar e conversar?

Que valor de vida está sendo passado às crianças? Que sentido de mundo estamos destinando a essa geração fast food, microondas, delivery?

A neurociências no processo educacional pode ajudar a transformar a aprendizagem. Permitir uma transformação na forma de ensinar e aprender. Valorizar as habilidades necessárias para cada fase. Valorizar o engatinhar, rolar, socializar, lateralidade, correr, pular e deixar que a leitura e escrita se desenvolvam na época que precisa ser desenvolvida.

DISCUTINDO PROCESSOS COGNITIVOS

Álvaro Nicolau – Neuropsicólogo

A atenção como referência

A atenção é a função cognitiva que mais me chama à reflexão. Como processo cognitivo, a atenção nos permite concentrar em um estimulo qualquer, devidamente escolhido, ou atividade para processá-los com mais aprofundamento num tempo depois. É uma das funções mais fundamentais para o desenvolvimento das atuações cotidianas, utilizada na maioria das tarefas que realizamos no dia-a-dia. Em especial é considerada a habilidade que controla e regula os processos cognitivos da percepção (precisamos da atenção para focar em um estímulo que nossos sentidos não alcançam) à aprendizagem, assim como em processos raciocínio mais complexo. Ao lidar com projetos de estudos, ou mesmo ouvindo pais em anamnese, e até mesmo crianças e adolescentes, quando a manifestação passa para o sentido que eles dão ao processo atencional faz como que essa temática se torne ainda mais atrativa para estudo.

Gastei tempo para compreender também esse fenômeno de que o adolescente desatento, principalmente na fala dos pais, ganha notoriedade:  “meu filho é inteligente, mas não vai bem na escola. Ele fica voando em sala de aula. Ele não tem atenção, mas naquilo que ele quer ah! vai longe. Ele nem mexe quando está assistindo um vídeo, não vê nada ao seu lado”.

É recorrente a fala de que “quando meu filho está com celular ou jogando pode cair o céu que ele não está nem aí”.

Com o tempo, e os estudos, entendemos que, no mundo moderno de hoje há muita informação e estímulo, e os itens certamente não são, em sua maioria, interessantes para os sentidos. Dessa forma, o que não atrai os sentidos, amplia a dificuldade para fixar, ignorar os pensamentos e manter foco atencional.

Primariamente poderíamos pensar que uma pessoa nas especificidades da apresentação a nós enquanto desatenta, simplesmente não tinha, ou tem, interesse em lidar com aquela informação apresentada e, por isso, não fixava sua atenção, especialmente quanto aos estudos, que se tornava, e torna, para muitos, chato e repetitivo, sem atração. Vamos aprendendo com o tempo e, presentemente, esse curso me trouxe isso, a percepção de que o fluxo da atenção pode estar no sentido que dou às escolhas para ver, ou fazer, como escolha primaria ou primordial, em relação às outras questões a mim colocadas. Ou seja, tenho muita atenção, foco, desde que haja meu interesse na escolha. Assim fica evidente que, quando minha consciência não traz para mim o sentido para prestar atenção, minhas experiências não chegam a fixar, ou seja, as experiências são coerentes com aquilo que eu concordo em fixar, ou prestar atenção. Se eu não estiver com a intenção de prestar atenção, se não tiver concordado com isso, a atenção não fluirá.

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Contexto teórico

Ademais todos nós sabemos, mesmo empiricamente, o que é prestar atenção, e as prioridades precisam ser criadas, ou selecionadas, mas de forma organizada, planejada. Isso porque a mente precisa tomar posse, de forma clara, mas também vivida, daquilo que eu coloquei na linha do pensamento. Dessa forma está em seu contexto primordial, a focalização e a concentração da consciência como essências desse caminho da atenção. Aprendemos que implica a abstenção de algumas coisas para poder lidar eficazmente com outras (JAMES, WILIAM, 1952 apud LIMA, 2005, p.114).

Fica indicado, por esse caminho, que a atenção pode estar aberta para a entrada da informação, ou fechada para essa entrada. É a analogia da “porta aberta, ou fechada”, permitindo, ou não, a “entrada” do que me interessa, ou não me interessa, na consciência. Aqui pode-se entender que é a atenção a principal via de acesso às atividades, ou seja, é porta para iniciar as atividades dentro do cérebro. Aqui estão inseridas as aprendizagens para fazer associações, interpretar, filtrar as informações, tomar decisões, guiar o próprio comportamento… por isso, ela é tão importante do ponto de vista neuropsicológico, e é considerada a base dos nossos processos mentais.

Dessa forma, a atenção, em neurociências, indica um conjunto de processos que nos levam a estabelecer prioridades e a responder estímulos – os relevantes, conforme nos ensina Lima (2005). Estão envolvidos os estímulos externos e internos, pois o resgate de informações arquivadas na memória, pensamentos, dentre outros, também está neste contexto.

Assim, a atenção é um conjunto e processos e não se refere a um mecanismo único, fechado em si mesmo e se divide em tipos e subtipos, além de envolver modalidades sensoriais diferentes.

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Segundo Dalgalorrondo, (2000) pode ser voluntária, quando é intencional, pois acontece quando nós decidimos para onde queremos dirigir nosso foco: estamos no controle; e involuntária ou automática, quando nós somos impulsionados pelas características dos estímulos ao redor, que atraem um ou mais dos nossos sentidos, ela não depende do nosso controle consciente e ocorre, por exemplo, diante de estímulos inesperados no ambiente (barulhos, cores intensas, novidades, incongruências, dentre outros).

Temos quatro tipos básicos de atenção: a seletiva, que se relaciona diretamente à inibição de distrações. Representa a capacidade de focar em algum estímulo, ao mesmo tempo permanecendo insensível a outros. Ou seja, concentrando-se em algum aspecto e, ao mesmo tempo, distraindo-se de outros. Outra é a atenção sustentada, que se refere à capacidade de sustentar do esforço atencional, manter o foco numa atividade ou estímulo por um tempo mais longo. A concentração é também sinônimo de sustentação da atenção seletiva, com inibição de distratores. A seguir temos a atenção alternada, que corresponde à capacidade de alternar o foco da atenção, a depender das necessidades do contexto. Igualmente, de retomar o foco da atenção após alguma interferência. A outra a ser mencionada é a atenção dividida, que se relaciona à capacidade de focar simultaneamente dois ou mais contextos. A divisão da atenção torna possível a multitarefa. Contudo, deve-se ter sempre em mente que a verdadeira atenção dividida existe numa única condição. Quando pelo menos uma das tarefas é feita no piloto automático, sem demandar esforço de processamento.

Já mencionamos que os processos cognitivos podem ocorrer de forma natural ou artificial, surgindo de forma consciente ou inconsciente, acrescentamos que geralmente são rápidos e funcionam constantemente sem a gente perceber.

Um bom exemplo de processo atentivo no cotidiano podemos citar algo ocorrente na nossa vida diária como é o caso de deslocarmos para o trabalho de carro: quando estamos deslocando na rua e vemos um semáforo ficar vermelho, iniciamos o processo cognitivo que nos indica que temos que tomar uma decisão (atravessar ou não). A primeira coisa que devemos fazer, nesse caso, é prestar atenção ao semáforo. Através da vista percebemos que está vermelho. Em apenas alguns milissegundos, obtemos da memória que quando o semáforo está vermelho não devemos atravessar, mas também lembramos que, às vezes, se não há nenhum carro então podemos atravessar. Aqui é quando provavelmente tomarmos a primeira decisão: esperar até o semáforo ficar verde, ou ver para a direita e a esquerda (alterando novamente nossa atenção) para comprovar se há algum carro passando.

Noutro momento, especialmente quanto à atenção alternada, um bom exemplo, é quando estamos trabalhando e somos interrompidos por um telefonema. Atendemos, conversamos e, ao final, retomamos nossa atividade anterior, ou seja, retomamos o nosso trabalho. Acrescentamos que esse quadro é também conhecido como Flexibilidade Cognitiva e é prejudicada quando há tendência ao hiperfoco.

 

Sobrevivendo, um dia viverei…ou sobreviverei ao meu próprio sentido de ser-no-mundo

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Álvaro Nicolau – Neuropsicólogo/ Psicólogo

O que significa isso? Nada!?? Mas o que é o nada frente ao tudo da vida, e do viver? Nada e tudo podem ser a mesma coisa? Sei lá, uns dizem. Que bobagem, outros falam. Mas…

Pois bem procuramos chamar a atenção. Chamar a sua atenção! Só isso? Claro que não! Há muito mais que isso, um tudo, ou um nada, por detrás de cada pessoa, em sua natureza humana. Uma incógnita! Um ser-nascente em um ser de morte querendo ser da vida.

Ocorre que estamos vivendo neste mês de setembro, ao que em 2015 foi denominado de “Setembro Amarelo”, dedicado pelo Ministério da Saúde para fomentar o diálogo sobre o suicídio. Mas o que tem isso a ver?

Logo na primeira dezena deste mês, Camila, Neuropsicopedagoga, linguista e psicopedagoga da Arcadium me “cobrou” uma manifestação sobre o suicídio. Confesso que não me entusiasmei. Não queria mesmo escrever sobre isso. Não estava com foco para isso; não havia vontade.  Até que nesta semana, atendendo uma criança de 08 anos a vi e ouvi ela falar sobre o suicídio. A falar sobre sua falta de desejo de viver esta vida que está vivendo; falta de vontade de estar ali, aqui ou acolá. Seu desânimo, ele diz, é alguma coisa que não consegue controlar, “estou com vontade de fazer nada…de morrer”. Prossegue, “não quero viver mais não”. Pais cientes e aplicados em ajudar o filho dando-lhe a oportunidade de encontros inquestionáveis com profissionais gabaritados para avançar com ele no “processo de reencontro com ele mesmo”, o percurso com a criança continua.

A partir daí perdi meu conforto.

Esse assunto traz sofrimento de culpa, que é comum entre os que vivem o luto, mas também dor, saudade, tristeza, muita perplexidade, além de impotência compondo o rol de sentimentos que permeiam o contexto familiar de quem perde uma pessoa pelo suicídio.

Rebuscando minhas anotações encontrei o registro de APS (iniciais fictícias para preservar a identidade da fonte), que em 2016 mencionava sua indignação se sentindo como “sobrevivente do suicídio” e não conseguia conviver com a ausência de quem se matou nos seus 73 anos. Seu pai morava com a esposa e, aparentemente, nada havia que indicava tal tendência. Primeira raiva, entendendo que ele não tinha o direito de fazer o que fez. Só deixou sofrimento, um grande vazio e os familiares tentando conviver com as sequelas do suicídio. Percebe-se que temos um lado que precisa ser olhado, acompanhado, acolhido, o de quem ficou. As pessoas, em sua maioria, especialmente a mãe(esposa)- ficou muito desestruturada- só falando no presente, mesmo considerando que o marido já não mais está aqui.  Ela está com distúrbio do sono, deprimida, e parece viver um pesadelo. Ele finaliza dizendo “eu não aceitei bem, mas agora procuro conviver com isso e procuro compreender o porquê aconteceu…mas não sei…não sei”.

Esses são dois casos isolados. Todavia a Organização Mundial de Saúde (OMS) (acesso em 23 de setembro de 2018) diz que quase 800 mil pessoas morrem por suicídio anualmente no mundo equivalendo a uma morte a cada 40 segundos.

A Associação Internacional de Prevenção ao Suicídio (acesso em 23 de setembro de 2018) vai mais além ao afirmar que cada suicídio afeta 135 pessoas trazendo a elas traumas e abalo psicológico.

O que se vê e percebe no ambiente da Clínica e no cotidiano também, é que o suicídio é um fenômeno, na verdade, um fenômeno muito complexo, que deixa para trás “sobrevivente” deixando principalmente no âmbito familiar muita revolta, dor, raiva, tristeza, culpa, mas, além disso, muitas perguntas sem respostas.

O anúncio do suicídio nos deixa primeiro estarrecido, perplexo, questionamentos intermináveis (faltei em algumas coisas? Ausentei dele? Porque? … Cria-se um grande vazio…vazio existencial. É tão drástico que, ou une a família ainda mais, ou acaba por uns culparem os outros. Há uma sensação de falta, de faltar alguma coisa diz APS mas completa dizendo que “eu me culpo por não tê-lo aproveitado quando pude”. Sua sensação é de falta…Aja força! ele fecha a conversa.

Esta é uma pequena menção sobre o tema. Mas é preciso que o apoio a todos que ficam seja evidente, e que esse aprisionamento seja pensado, discutido, tratado com carinho e responsabilidade. Isso leva tempo e o apoio psicológico aos familiares de alguém que cometeu suicídio e outros que estejam enlutados, é um dos fundamentos para o entendimento de tudo o que aconteceu.

Em relação à ideação suicida suscita em nós outros uma postura ética, moral, profissional de tamanha importância. Isso porque ao se manifestar quanto ao suicídio aquela máxima de que “quem avisa não faz” é algo impensável. Somente quem vive a dor sabe o tamanho dela e deve ser levado a sério.

Por isso, principalmente os pais, precisam estar atentos aos sintomas manifestados pelos filhos, pelos pares, pelos familiares, e outras pessoas que podem procurar ajuda e se mostrar por um ato, ou falta dele, por uma palavra, ou ausência dela. Dizer que a “depressão é frescura; isso é preguiça … ” por exemplo,  é um grande mal e um desserviço ao contexto do que estamos discutindo.

Como se vê esse assunto é sério, é traumático, mas precisamos falar sobre ele.

Precisamos ficar atentos a quaisquer sintomas apresentados pelas pessoas, e agir com oportunidade.

Alerta geral!

 

Uma manhã no parque

No dia 28 de Julho de 2018 os profissionais da Arcadium reuniram com as crianças atendidas, pelos psicólogos e psicopedagoga, e seus pais para uma manhã de estímulo neuromotor e socialização.  Cerca de 34 crianças vivenciaram uma manhã com brincadeiras ao ar livre como pular corda, jogar peteca, pular elástico, futebol de dupla, corrida de obstáculo e atividades em equipe. Depois de gastar muita energia foi a hora de repor com um piquenique coletivo.  Objetivo alcançado e com a certeza de que novas sinapses puderam ser reconstruídas.

“É importante que os pais reconheçam a cidade e redescubrem os espaços públicos que permitem às crianças experiências para além dos jogos eletrônicos”, disse Camila Franco, psicopedagoga.

“Tudo muito bom eu adorei gostaria que vocês fizessem mais vezes parabéns para todos”, disse Cláudia mãe da Laura Cornélio

 

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Ainda sobre Processos Demenciais …

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Por Álvaro Nicolau
Neuropsicólogo, atua diretamente com adultos e idosos

Em psicopatologia, o declínio cognitivo global é chamado de demência. Sua origem é do latim (dementia) significando, de forma genérica, qualquer deterioração mental. É um conceito amplo que inclui deterioração das habilidades intelectuais, da memória, da orientação, do pensamento e do comportamento. Essa deterioração representa um declínio das funções cognitivas adquiridas anteriormente. Em outras palavras, as demências caracterizam-se por apresentarem múltiplos déficits cognitivos, em especial, déficit de memória, devido a problemas orgânicos, tóxicos ou por múltiplas etiologias. Tais déficits comprometem o funcionamento ocupacional, social, educacional e representa um declínio significativo em relação a um estado anterior de funcionamento do sujeito (APA, 1995).

Quando mencionamos demência, estamos falando em um conjunto de sintomas que afetam diretamente a qualidade de vida da pessoa, levando a problemas cognitivos, de memória, raciocínio e afetando, também, a linguagem, o comportamento e alterando a própria personalidade. É evidente que a perda da função cerebral é uma condição que ocorre na demência. Por outro lado, o envelhecimento da população ocasiona o aumento das doenças degenerativas, em especial da Doença de Alzheimer (DA). Portanto, a compreensão do processo de transição do envelhecimento saudável para a DA é importante e precisa ser reconhecido por marcadores neuropsicológicos, e estudos mostram sua importância sugestiva de identificação precoce da DA.

No caso das demências indicamos o reconhecimento dos estudiosos pelas características de especial importância, que é o rebaixamento da memória. Mas o que é memória? Em que base ela é estudada? O indicativo é de que a memória corresponde à retenção dos conhecimentos adquiridos sobre o mundo. Ela transforma o passado em presente. Por outro lado, estudos mostram que a memória declina com o envelhecimento e pesquisadores são desafiados a explicar tal fato. Certamente que, embora com estudos e mais estudos, algumas perguntas ainda aguardam respostas. Uma delas é no caso das falhas de memória e em que circunstâncias podem ser consideradas como passos normais do processo de envelhecer e quando podem ser consideradas indicativos de doenças degenerativas? Segundo Correa (2016) estudos no exterior e no Brasil apontam para a “revolução silenciosa” do envelhecimento da população. Os estudos mostram que em 1950, haviam 214 milhões de idosos com mais de 60 anos no mundo. Em 2025 esta cifra estará em 1 bilhão de pessoas.

No caso do Brasil, a população idosa já passou de 6,1% para 7,3% da população total, o que equivale a 8 milhões de pessoas. Consta pelo IBGE (acesso em 30/05/2018) que, em 2025, o Brasil terá cerca de 34 milhões de pessoas acima de 60 anos, sendo o país com a sexta maior população de idosos em todo o mundo (IBGE, 2002). Mas porque isto é importante? É importante porque o envelhecimento da população ocasiona o aumento da prevalência das doenças crônico degenerativas, entre elas as demências, sendo a de Alzheimer (DA) mais frequente.

Ao entrarmos nos anos 2000, estimou-se a existência de 150 milhões de idosos com demência em todo o mundo (Norton, Marin & Inestrosa,1995). Com base nas estatísticas populacionais brasileiras do último censo, estima-se a prevalência da DA em 1,2 milhão de pessoas, com incidência de mil novos casos por ano.

O impacto socioeconômico da DA é alto, pois é uma doença crônica, de evolução lenta, podendo durar até 20 anos. Nas fases avançadas da doença, o paciente torna-se completamente dependente, sendo incapaz de alimentar-se sozinho, tomar banho ou vestir-se (grande prejuízo no autocuidado). Nos EUA são gastos, anualmente, cerca de 100 bilhões de dólares, em tratamentos, exames complementares e cuidados indiretos com pacientes. Nos EUA o número de demenciados chega a 4 milhões de americanos, com mais de 100 mil mortes por ano. É a quarta causa de morte em adultos. Por outro lado, segundo Norton at al (1995), está estimado em 12 a 14 milhões de pessoas no ano de 2040. No Brasil não há estudos de estimativas sobre gastos, nem de incidências oficiais da DA. Todavia podemos inferir que estes números também são elevados, em função do grande número de idosos e da alta prevalência da doença nessa camada da população. Por tudo o que foi mencionado, é importante a identificação precoce da demência. E a doença de Alzheimer como a mais frequente. Nesse contexto temos o quanto é importante a contribuição da avaliação neuropsicológica na doença de Alzheimer.

No contexto das demências, segundo estudos de  Caramelli & Barbosa (2002)  as  formas mais frequentes são: Doença de Alzheimer, Demência vascular, Demência de Corpos de Lewy e Demência Frontotemporal. A Demência de Alzheimer é a principal manifestação das demências com estudos epidemiológicos indicando que é responsável por mais de 50% dos casos. Ela foi descrita, inicialmente, por Alois Alzheimer, neuropatologista alemão, em 1907, ao relatar o caso de uma paciente de 51 anos que apresentava declínio da memória, acompanhado de vários déficits cognitivos (apraxia, afasia e agnosia) e distúrbios de comportamento. A autópsia revelou extensas lesões cerebrais, com perda neuronal, placas senis e emaranhados neuronais, chamados de fusos neurofibrilares. Kraeplin, em 1910, propôs o nome “Doença de Alzheimer” em homenagem a seu descobridor (Woodruff-Pak, 1997).